estou farta das superfícies, por isso fujo dos jantares de fim de ano, por isso fujo das pessoas que um dia amei. poderia dizer que quero a solidão, mas é mentira. poderia dizer que quero o silêncio, mas continuaria mentindo. é que quando estamos sós temos certas coragens que nos faltam em público, é que ali no silêncio desassossegado, que bem citou Pessoa, todos estão propensos à verdades afiadas. sabe que me provoca profundidades. vir à tona, tomar fôlego até o pulmão quase estourar e voltar à lama, ao lodo que só se acha no fundo. sabe que instiga o pior que há em mim e mesmo que diga: "a faca é cega", eu digo, amado, meus olhos de pedra conseguem amolá-la, para furar os outros como bem me ensinou. tenho que expurgar essa personagem que toma conta de meu cotidiano, ontem passei a noite olhando para ela, que é a fumaça de meus cigarros, que é minha inspiração e minha expiação. rememoro cada prego da cruz, porque é isso que dá vida e faz sangrar. e reafirmar que ela não sou eu não melhora em nada a minha condição de sua escrava. finjo, dissimulo em febre quase gentil, como se não fosse minha essa dor que toma e tomará tudo que me é importante. minha pele tem muitas queloides provocadas por lembranças suas e não suporto mais. e mesmo rejeitando esse sentimento calmo e nocivo permaneço alimentando o que machuca e deixa marcas. e nem deveria perder meu tempo nessa mesma tecla preta do piano. por quantas vezes foi possível repeti que abandonei aquele estágio dicotômico de amor e asco. e assumo, assumo mil vezes, que trago aqui esta falha de caráter, uma fuga insana da realidade torpe que rasga todo o tempo, mas quem disse que consigo renegar isso?
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