sexta-feira, 26 de junho de 2026

alucinação

 

hoje lembrei de uma noite estranha, os dois entorpecidos, sem quem nos velasse ou olhasse por nós, a visão de corpos sangrando e saindo pelas paredes daquele quarto de subúrbio, eram seus olhos arregalados me fitando com desejo e fúria, eram suas mãos me apertando e seu sexo me invadindo. agora, vejo sua imagem, mesmo de olhos fechados, intocada pelo tempo, o cheiro de éter está por todo lado e sua boca ainda sorri, sem abandonar a minha. 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

reestreia

 reestreia

sim, os antigos personagens com suas experiências bizarras e passagens invisíveis estão de volta. e são eles os que mais prosperam e proliferam nessas pequenas chances que dão a mim. as viagens alheias se tornam autobiográficas, mas a caneta esferográfica não distingue nada. as grandes jornadas são feitas no silêncio mais profundo que conheço e que é possível. as ondas de meu velho rádio de pilha só repetem músicas que me pedem paciência. um passo de cada vez, depois de tantos, sem pensar que tudo está à beira do mesmo abismo colossal. as notas destoantes e cacofônicas nascem da simbiose do medo e do encontro de olhares catatônicos.

terça-feira, 23 de junho de 2026

plateia


apeteceu-me, por um tempo, olhar as pessoas como peças móveis em um tabuleiro, tendo a visão que estavam em seus pequenos casulos sociais, tecendo seus fios de hipocrisias e medos. nessa época não me considerava gente e aceitava quase impune meu papel de pequeno e irrelevante observador. agora sofro por me ver presa nesse mesmo casulo e amarrada com as mesmas cordas.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

concreto


sei que não conseguirei arrancar essa dor que traz, nem tampouco aliviar essa angústia cimentada em seu peito. a noite é cega e me faz lembrar do que me disse uma vez sobre a vida ser preta, sobre a vida ser branca e nesse contexto não há tons de cinza, amado. a metáfora é certeira e sua fala é exata. somos privados de sanidade quando assumimos o risco de amar, quando nos entregamos ao desejo. e reitero que somos aqueles lençóis, embriaguez e nossas marcas. sei que tudo é transitório, mas ainda não me acostumei com isso.

domingo, 21 de junho de 2026

lira


não há indiferença nesses olhos amanhecidos, enquanto sinto você por perto, amado. espero que tenha entendido que o que não quero é sofrer por algo efêmero, mas tudo é. não há dor maior que acordar com isso, pedir cordas e se jogar no asfalto, como se fosse tudo que temos. e se não soubesse de nossos lençóis revirados e carregados com nosso cheiro, das garrafas vazias e dessas marcas na pele, poderia jurar que não há amor. nunca acreditei em contos de fada, ou histórias da carochinha, o cotidiano não contabiliza ganhos na distância, nem as queloides que a ilusão acentua. e se tem o coração batido, saiba que o meu por esperança ou dolo, segue o mesmo ritmo do seu.

sábado, 20 de junho de 2026

sambinha


se soubesse que chegaria tão cedo, não teria bebido o porre de vodca dessa madrugada, relendo as suas cartas e não estaria com esse cheiro de choro amanhecido, nem com esses olhos inchados. não pedi dinheiro algum, nem sabia onde estava e fiquei esse tempo todo sem notícias. acho que a bebida afeta mais seus miolos que os meus. não tenho cuidado nem de mim nesses últimos tempos, então não me venha falar de seu retrato. o telhado está cheio de goteiras e não tive forças para subir e consertar, mas coloque o vinil do Pixinguinha, me beije e mate minha fome, juro que depois mato todas as suas.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

entrega


as moças de família ficariam quietas, esperariam santas a sua volta, suportam faltas silenciosas, se movem com delicadeza, como se não tivessem vontades berrando em cores de Frida Kahlo. usam perfumes finos e esperam ser seduzidas, como se isso não fosse papel delas. seus narizes empinados cortam o vento e eu não sou assim. excito você porque não sou assim e se tudo que me oferece hoje é uma punheta, quero-a de bom grado, se isso me levar um pouco mais perto de seu corpo e de sua vontade, toque-se pensando que ainda há desejo aqui. pense em minha boca que tantas vezes disse o seu nome e com desespero abocanhou-lhe rijo e teso. sim, tenho saudades, seu lugar ainda é seu por merecimento. não encontrei quem o substituísse à altura. sou de uma simplicidade burlesca, de uma sagacidade pagã, há quem me julgue passional e impulsiva, quem disse que eu ligo?