terça-feira, 12 de maio de 2026

inércia


decerto a mansidão do deserto se curve à imensidão das águas, mas enquanto não, seco. é o calo em desalinho, forma obscura de um tempo vão. onde não há amar ou fúria, onde se cala a devassidão. esse seu rosto cálido, descrito em conta de arrimo é só a fuga de um querer pobre que não quer cura. decreto é a luxúria de se entregar a outros corpos enquanto só se deseja a solidão.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

alento


 

 as coisas têm nos afastado, não é querido? o coração está bem, mas não consigo parar de fumar, o que é ruim. mas o que não é? estou amando, como sempre... coração vagabundo, como diz Caetano! me divirto com meus mancos, como sempre e a saudade de você é enorme, tem o dom de me reanimar! meu texto de Kerouac está aqui, crescendo e crescendo, como um diário de bordo mal escrito e pouco reverberado. saber de sua vida é uma tábua de salvação, um arquipélago baldio nessa vastidão de mar revolto! pesa-me a idade e os sorrisos já estão gastos quase tanto como a pele, não tenho o mesmo visco. ando até meio aborrecida, pois as coisas, quando convalescemos, se tornam mais lentas e monótonas. mas não me queixo a vida é gueixa querendo se dar!

paramare


não farão falta as flores de plástico que deixara sobre o balcão, mas falhou na noite passada. o relógio batia insistente a melodia que já sabemos de cor. pobre da moça que encontra-las e enfeitar com elas o coração. a jardineira daqui não é obstáculo, nem foi colocada ali como um adorno de janela, amado. é só um lembrete de como tudo é breve e belo, um suspiro perfumado de vida, paraísos artificiais. não arrancaria nenhuma delas para você, trazem a essência rara das horas que perco ao regá-las. tempo que não temos para o agora.

sábado, 9 de maio de 2026

insônia


não dividi meus segredos, pois repartir tira-me o sono. não direi desaguei meus engodos e que em algum momento abri meu coração. nunca achei justo sujar águas claras em falácias pernoitadas. foi-se o tempo que dava espaço para estrangeiros, que apenas esquentam a cama e na manhã seguinte abandonam minha morada. mas saiba que me dói ainda a lembrança de vê-lo sair. foi único que partiu deixando-me suas lágrimas em meus olhos.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

vapor


senti sua falta de uma maneira que jamais senti. seu silêncio acompanha-me nos banhos matinais que batizo com seu nome, quanta ternura posso encontrar num banho morno? sim, pois o que ferve não é a água e o que fere não é o não dito. o espelho estava embaçado e tirei a toalha que me envolvia para me ver melhor, nunca vi meus olhos tão opacos como agora.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

¾


revirei as gavetas da escrivaninha hoje, procurando um texto que jurava ter anotado, mas na procura em algum momento me convenci que não havia feito. e sem encontrar o que não passava de mera miragem de minhas lembranças encontrei um retrato seu, um bem pequeno desses três por quatro que nos mostram exatamente como somos, livres de adornos ou sorrisos mascarados. esqueci-me do que poderia ter escrito naquele pedaço de papel que não existiu e sorri, quase me confidenciando algo que sempre soube. que meia dúzia é mesmo seis, que uma dúzia é dose e que não se troca três por quatro e trocamos.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

suor


acordei mais cedo que o de costume, aliás não dormi mais que duas horas...

nessas fases de pouco sono e literatura transbordando pelos poros, lembro-me de que matéria somos feitos.

tenho amado você nesses dias. não há porque esconder o sentimento que salta aos olhos e enriquece as palavras.

terça-feira, 5 de maio de 2026

baldio

quem é esse homem que brada e berra à procura de redenção e ainda se sente tão preso ao ego? a quem esse mesmo homem pede quando suas tábuas somem, enquanto seu bote afunda? outro dia, observando você dormir entendi quem é esse náufrago que descansa sobre minha cama, entre meus lençóis. compreendi a quem ele recorre quando outras mãos falham e nada mais pode salvá-lo.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

ressaca


para dois seres sensíveis e machucados meias palavras não cabem, então a tarde caiu leve, nos embriagamos com Manoel de Barros e sorrimos. a noite correu falante, pouco álcool e muita poesia, para dois poetas o bastante. a madrugada reservou um banho de piscina e a lembrança de tantos erros, copos vazios e almas cheias. ao amanhecer chuva forte e janelas abertas, Neruda e Pessoa molhados no chão. palavras encharcadas e inteiras.

domingo, 3 de maio de 2026

confissão

 

 

 quero preencher meus dias com literatura de boa qualidade, mas sem me preocupar muito com isso. passei anos de minha vida me prendendo ao fato de escrever algo bom e admirável. hoje vejo que a simplicidade habita as coisas mais belas que já toquei e como tive e tenho muitas coisas assim, sei que posso transcrever da maneira mais simples que conheço, uma vida profunda e repleta da matéria de que sou feita.

sábado, 2 de maio de 2026

contido


não importa por onde começamos ou se há como rasgar tudo como um roteiro mal escrito e colar as partes de modo contínuo e que faça algum sentido, se é que isso importa, pois no fim nada mais é sentido mesmo. mostre-me que está vivo e me faça sofrer ao invés de gritar de tédio. não há vítimas aqui, entreguei minha cara a tapas e o corpo aos vermes e antes que algum deles me tome como morta mostre-me do que é feito, o que é real e feio, tudo que eu nem queria ver e eu choraria por todos os outros se tivesse aprendido a chorar por mim.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

reencontro


já não sou a mesma pessoa que vi há dez anos, quanto mais o tempo passa mais entendo o quanto é difícil me reencontrar, mesmo que isso demore e cada vez que acontece saio mais e mais arrasada. não pense que tem sido fácil me ignorar por todos esses anos pedindo socorro pelos espelhos, por vezes dando de cara comigo até no fundo de colheres. essa sensação de me sentir invadida e inquirida por meus olhos é devastadora. entender que não me conheço e que sou meu maior algoz me revira o estômago e me faz agonizar. quem dera derreter, como o açúcar, no fundo das xícaras de chá.